Um link com o passado

ENTREVISTA JORNAL O TEMPO

Terça-feira, 18 de Outubro de 2005, 00h05
Terapia regressiva, o link com o passado
ANA ELIZABETH DINIZ ESPECIAL PARA O TEMPO

“Em 1996, durante uma sessão de acupuntura em um cliente, ele começou a gritar com intensa carga emotiva. Ele narrou um assassinato e a sua própria morte, um dos prováveis motivos de tanta ansiedade e peregrinações por vários especialistas. Naquele momento, eu apenas o acolhi, deixando sua catarse terminar. Esse episódio me mobilizou a buscar respostas que esclarecessem o que eu havia assistido. Foi a partir dessa experiência, que iniciei a minha formação em terapia regressiva. Comecei aí uma viagem ao inconsciente humano”, declara Jacques Tadeu França, 46, formado em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais, com especialização em ortopedia e traumatologia pelo Hospital Felício Rocho e Hospital Ortopédico.

Além dessa experiência marcante e decisiva, o médico lembra que a escuta diária no consultório foi revelando outra realidade menos cartesiana.

“Muitas pessoas que me procuravam com algum processo de dor, principalmente as mais resistentes, traziam consigo uma profunda insatisfação em algum aspecto de suas vidas. Bastava uma simples pergunta: você está feliz? E a resposta era imediata: não. Muitos pacientes, após desabafarem ou até mesmo chorarem, saíam do meu consultório sem dor. Muitos passaram por processos exaustivos de fisioterapia e fizeram uso contínuo de antiinflamatórios sem resultados. Outros padeciam de dores sem causa aparente”.

Daí veio o interesse pela medicina chinesa. “Tive que romper com vários paradigmas para começar uma apaixonante viagem pelo conhecimento oriental. Aprendi como aplicar o conceito de energia na medicina. Aprendi que emoções, pensamentos e sentimentos são formas de energia que podem causar distúrbios energéticos levando o indivíduo a apresentar doenças. Através do desbloqueio dessa energia, comecei a contabilizar resultados de curas integrais”, relembra França.

A demanda do consultório gerou a necessidade de uma formação em técnica regressiva, que o médico fez no Instituto de Terapias de Vidas Passadas, em São Paulo, além de diversos cursos como Programação Neurolinguística, hipnose, reiki, cura prânica, ioga, psicologia indiana e budista e terapia regressiva integral com Roger Woolger.

O TEMPO – O que é a terapia regressiva?
Jacques Tadeu França – É um conjunto de recursos terapêuticos presentes em várias escolas psicoterápicas ocidentais (análise, psicodrama, Gestalt-terapia e bioenergética) e das antigas tradições (ioga, hinduísmo, budismo tibetano e xamanismo) que promovem estados expansivos de consciência e um contato com as possíveis causas de um problema, esteja ele no passado recente ou remoto, respeitando a realidade pessoal.

É uma terapia centrada no cliente e combina o profundo envolvimento com o corpo, a mente, as emoções e as dimensões espirituais do ser, dinamizando a sua reintegração e harmonização.

Como se dá o processo?
A sessão acontece a partir da queixa trazida pela pessoa. Quando todos os recursos de diagnóstico e tratamento se mostram infrutíferos, indico a terapia regressiva. Para acessar o conteúdo que está reprimido no inconsciente, utilizo-me de várias técnicas como imagens, sonhos repetitivos, pesadelos ou mesmo as sensações vindas do próprio corpo da pessoa.

Existe, muitas vezes, uma história por trás da queixa, mas ela não é reconhecida conscientemente. É preciso escutar as queixas como metáforas que podem representar a história que mantém o processo da doença. Tudo isso está fora do paradigma científico. Pode parecer imaginação ou fruto da fantasia, mas é muito efetivo e o que é melhor, cura.

Qual o objetivo final da regressão?
Conduzir a pessoa ao trauma. É nesse momento que ela se perde de si mesma. É necessário reintegrar a pessoa e conscientizá- la do que realmente aconteceu. Trabalhamos um enredo com início (trauma), meio (carga) e fim (cura).

O conteúdo é trabalhado para que a catarse possa esvaziar o indivíduo dessa narração dolorosa e, assim, ele possa ter consciência do seu processo de autotransformação.

Esse tipo de terapia acessa vidas passadas?
Sim e não. Depende do conjunto de crenças da pessoa que se submete à técnica. Podemos falar de supostas vidas passadas, fantasias (passíveis de tratamento), imagens, memória celular, inconsciente coletivo, enfim, pode-se rotular o que se experimenta de qualquer nome dentro da realidade da pessoa.

Existe uma experiência feita pelo psicólogo Júlio Peres, de São Paulo, em que o cérebro das pessoas era monitorado por computador. Através da infusão de um contraste constatou-se que, durante a vivência, a área do cérebro excitada correspondia à área de memória remota e não à área da fantasia.

Acreditar ou não em vida passada não é condição excludente para não se beneficiar da regressão de memória. O que comumente acontece é que, após experimentar a regressão de memória, a vivência é tão autêntica e tão cheia de conteúdos emocionais que se passa a respeitar a possibilidade de ser uma suposta vida passada.

Eu, particularmente, me abri para essa possibilidade e, hoje, é o que tenho de mais concreto para as minhas crenças pessoais. Além disto, essa possível verdade me dá condições de construir teorias e estudar o ser, a alma, o objetivo da vida, e muitas perguntas sem respostas. É incrível a coerência de pensamento, de crenças que se consegue partindose desse pressuposto. O momento da morte, durante a vivência, é incrivelmente semelhante nas descrições de todos os pacientes em todas as partes do mundo. Há um período denominado de “entre-vidas” que é onde acontecem os maiores “insights”. E, então, se não há outras vidas, o que seria então esse período descrito por todos?

Como foi a evolução do paradigma newtoniano para o einsteiniano?
Com os trabalhos de Michael Faraday e James Clerk Maxwell, no século 19, sobre o eletromagnetismo, a ciência mecanicista sofre seu primeiro abalo. Torna-se possível a existência de uma realidade independente da matéria redutível a componentes básicos – o campo eletromagnético – cujo conceito é sutil.

A transformação radical ocorreu em 1900. Max Plank descobre os ’quanta’ de energia. E, em 1905, Albert Einstein publica a sua teoria da relatividade, mais tarde conhecida como Teoria Geral da Relatividade e que rompeu com os rígidos conceitos newtonianos em relação ao espaço euclidiano rígido independente de um tempo linear universal.

Com Niels Bohr, Werner Heisenberg, Wolfgang Paul, Erwin Schrodinger e outros, descobriu-se que os elementos atômicos, a luz e outras formas eletromagnéticas têm um comportamento dual e a natureza do comportamento observado era estabelecido pela expectativa expressa no experimento em questão.

É o princípio da “complementaridade” de Niels Bohr, onde o paradoxo é necessário, pois no nível quântico não há uma objetividade completa. Segundo o “princípio da incerteza” de Heisenberg, no nível subatômico o que existe são “tendências a existir” e os eventos têm “tendências a ocorrer”.

É o segundo abalo newtonianocartesiano que ditava um universo determinista e mecânico. Cai, assim, o determinismo. As partículas não são mais objetos isolados, mas interconexões dinâmicas de uma rede sutil de energia entre um experimento e outro.

Demonstrou-se que a crença em um universo determinista era fruto do desejo humano de controle e previsibilidade sobre a natureza e não uma característica intrínseca da mesma. A visão materialista- mecanicista e fragmentadora do homem evoluiu com a física quântica para uma visão de campos de energia sutis e suas interconexões dinâmicas.

Que mecanismo ocorre no cérebro para que a pessoa consiga se lembrar de suas vidas pretéritas?
Do ponto de vista neurofisiológico, as pesquisas vieram se desenvolvendo desde os simples traçados dos eletrocardiogramas, eletroencefalogramas e passam pelas dosagens séricas de serotonina, histamina e adrenalina até os estudos mais avançados com o Spect Scan (tomografia por emissão de fóton único). As memórias traumáticas podem ser conscientes e inconscientes.

Por que lembrar se nos foi dado o esquecimento?
Foi-nos dado o esquecimento ou nós usamos desse recurso para não sofrermos? O esquecimento é um processo seletivo, temporário e nunca total. Seleciona- se o conteúdo traumático e doloroso para se minimizar o sofrimento.

O relembrar acontece num momento de amadurecimento psíquico para que possa haver o esclarecimento. Há várias técnicas de regressão de memória que promovem esse processo com segurança.

É importante saber que muitas crianças, em todas as partes do planeta e em qualquer século, não importando a orientação religiosa e familiar, tão logo falam, relatam fatos relacionados a possíveis vidas passadas. Quando repreendidas podem reprimir esses conteúdos.

Quando motivadas relembram naturalmente. Lembrar pode ser terapêutico no sentido de sanar uma dor que pode ser de alma. Nos lembramos do conteúdo reprimido porque ele perturba o psiquismo.

Contatos com Jacques França: 3287-3015.